8 de novembro de 2009

Freio de mão


Kundalini é o nome do chakra pelo qual as energias sexuais deveriam fluir. Deveriam, mas não fluem: não sei o seu, mas a minha kundalini está estourando com energias acumuladas de todo tipo e tamanho.

O que mais dói, porém, disse uma amiga, não é a ausência de um bom sexo (aquele com carinho: raro, raro), mas represar a inundação causada por um bom sexo, ter de puxar o freio de mão em alta velocidade, ou, em português claro, lidar com a frustração de não ter uma segunda noite com o homem que deu tudo o que você queria na cama.

Esse tudo varia ao infinito – o que é pra você? Encaixe, orgasmo, olho no olho, carinho, encantamento, beleza, pele, cheiro, amor. Você acha que é impossível rolar amor numa primeira transa? Hum... me parece que não existem impossibilidades quando duas pessoas se encontram na cama: do melhor ao pior, do amor ao estupro, tudo pode acontecer. Dizem que paixão pode ser imediata, mas que o amor só vem com tempo: mas quem faz essas regras? E se a inundação da kundalini traz tudo ao mesmo tempo? Eu não duvido. Em matéria de gente, eu não duvido de nada.

Há algumas semanas minha amiga teve uma daquelas noites em que vieram à tona todas as energias represadas, todas as águas femininas que se escondem deus sabe onde, todos os orgasmos que deveriam ter sido e não foram, todos os olhares que perfuram a alma, todo o suor que cola dois corpos como um chiclete, todo o fluxo intenso da kundilini. E o responsável por essa noite não estava no Tibet imantando o mundo com vibrações de longo alcance, não: era um rapaz com nome, sobrenome, endereço, profissão, perfil no orkut, casa, cachorro, jardim.

Então ela acordou no dia seguinte com todas as tensões do corpo soltas, todos os calos da alma lisos, todas as lutas rotineiras subitamente minúsculas, ela acordou rodando a um bilhão de quilômetros por hora, na velocidade da luz ela se tornou uma larga e fluida faixa branca. Por isso ela quis vê-lo de novo e de novo e de novo, mas... ele pareceu distante no MSN, ele não respondeu ao seu torpedo, algo desencaixou.

Então ela, a mais de um bilhão de quilômetros por hora, teve de reduzir a marcha – e reduzir a essa velocidade significa praticamente puxar o freio de mão. Sim, ela deu um cavalo-de-pau. E está agora aqui na minha frente se perguntando: “Se foi tão bom pra mim, como pode não ter sido bom para ele também?”.

Não sei, minha cara. Mas sei que puxar o freio de mão é o que mais a gente faz na vida. Bem-vinda ao clube.

->Por Stella Florence